Wednesday, September 28, 2005

… E DEPOIS?

“Essa é uma questão que nunca me foi colocada.”
– ?

Até prova em contrário, este será o meu último artigo. Quero, portanto, escrever uma coisa banal.
Há uns tempos atrás – quando, não interessa, nem tão pouco vou dizer – coloquei uma questão a uma pessoa e a resposta que me foi dada foi “Essa é uma questão que nunca me foi colocada”. Lamento ter colocado numa situação embaraçosa alguém que só muito recentemente começou a desempenhar funções.
O meu último artigo irá debruçar-se sobre este tipo de situações: questões simples e directas que ao invés de serem respondidas de forma clara e honesta são respondidas de forma evasiva e dúbia, quando não falsa.
A pessoa em questão sabe que me estou a referir a ela – pelo menos, assim creio – e quero deixar bem claro que o seu nome não será aqui mencionado. Não é este o espaço indicado. Por muita vontade que possa ou não ter.
A resposta “essa é uma questão que nunca me foi colocada” é, ainda assim, interessante e dá a ideia que, realmente, ninguém se lembrou de lhe colocar essa questão. Está, assim, ao nível de alguém perguntar ao Primeiro-Ministro como é que ele vai reduzir o défice orçamental sem reduzir o investimento público. (Falando de questões actuais.) Ninguém lhe perguntou isso ainda – do que é que estão à espera? – ninguém perguntou o que é que se vai fazer para combater o aumento da taxa do desemprego. Perguntem a alguém que tenha ganho o primeiro prémio do Euromilhões se gostou de ganhar. Será que a resposta a qualquer uma destas questões será “Essa é uma questão que nunca me foi colocada”?
Para mim, a resposta é não. E não porque essas questões já foram colocadas mais que uma vez e respondidas, também, mais do que uma vez. A diferença está em que numas vezes são respondidas de forma mais clara e honesta do que em outras.
Não há nada pior do que colocar uma questão e não receber uma resposta. Ou melhor, há. Colocar uma questão e receber uma resposta que não esclarece e ainda suscita mais dúvidas é pior. Entre o não responder e o responder com o intuito de confundir, a minha escolha está feita.
Desde Março que escrevo para este jornal e uma das críticas que mais me têm apontado é a divagação. É verdade. Divago, sou indirecto, subtil e irónico. Mas posso e consigo ser o oposto. Já o fiz em mais que uma ocasião e creio que é altura de o fazer novamente.
Num artigo anterior [Especulação] abordei a questão das classificações. Relembro àqueles que não leram esse artigo quais eram – e continuam a ser – as minhas dúvidas.
Especulei, o termo é mesmo esse, sobre os critérios de divulgação das notas. Existem formadores que estão autorizados a divulgar as notas que vão atribuir no final dos módulos e formadores que não estão autorizados. Questionei então o porquê dessa situação e frisei que o meu propósito não era pôr em causa a minha avaliação, mas apenas analisar o meu desempenho.
A situação de fazer um trabalho ou um teste ou seja o que for e depois não se saber a nota ou saber, mas não poder ver a correcção, desagrada-me. Talvez seja um caso raro.
Terminei o meu Curso na sexta-feira passada, por isso talvez seja tarde para levantar polémicas. Ainda assim, sinto-me no dever e no direito de o fazer.
Informações como classificações, faltas e outras estão incluídas no Dossier Pedagógico de cada formando. De acordo com o Regulamento do Formando, o formando pode requisitar a consulta do seu processo a qualquer altura da formação. É um direito que nos assiste e é um direito que me foi negado.
Os formandos têm acesso ao Dossier Pedagógico?
Essa é uma questão que nunca me foi colocada.
Talvez tenha sido a primeira vez, de facto, que a questão foi colocada, mas não será, com certeza, a última.
Costuma-se dizer “quem não deve, não teme” e este secretismo só dá azo a rumores e desconfiança. Não gosto de falar por outros, mas pessoalmente acredito que certos casos ocorridos neste Centro teriam sido processados de outro modo, caso houvesse uma maior transparência.
Penso que, no fundo, é isto que realmente incomodou algumas pessoas que leram os meus artigos, e não tanto a divagação. Descansem, meus senhores e minhas senhoras, o “puto”, como tão carinhosamente me chamavam, em breve irá vos deixar em paz.
Mas, antes, vou obter as respostas que procuro.
Uma última nota em tom de irreverência, se eu sou “puto”, vocês são “cotas”.

Wednesday, September 14, 2005

O REGRESSO ÀS AULAS

Regressei a Tomar no passado dia 31. Circunstâncias infelizes obrigaram a que o meu período de férias fosse passado, não a gozar essas férias mas, a concluir trabalhos do Curso que não tivera oportunidade de concluir antes.
Foi precisamente no dia 31 que vim almoçar ao Centro de Formação e tomei contacto com um novo cenário: uma nova Directora. Creio que até aqui alguns de vocês estavam a pensar que eu ia fazer pouco dos autores da nova... decoração (no sentido mais amplo do termo) do Refeitório. Pessoalmente, não desgosto. Para uma criança de 7 anos até está muito bom. No entanto, não é este o assunto desta semana.
Antes de prosseguir, permitam-me que diga o seguinte: eu não conheço a nova Directora. Já me cruzei com a senhora nos corredores, mas nunca falei directamente com ela. Deste modo, vou-me centrar apenas em aspectos executivos e nunca em aspectos pessoais. Posso criticar as ideias, as medidas, mas não a pessoa. Notem também que “criticar” não implica falar mal – às vezes também é falar bem. Acima de tudo, quero ser imparcial o mais possível; por isso, volto a dizer, estes artigos – e este em particular – são sempre escritos como cronista e nunca como formando. Confesso que, algumas vezes, fugi ao cumprimento desta regra mas, desta vez tentarei não o fazer.
É precisamente essa distinção entre formando e cronista que é preciso ter em conta ao ler isto.
A contestação tem sido imensa – ou dizem que tem sido imensa. Num jornal da região, a Directora Lucília Vieira indicou que apenas 5% dos formandos haviam demonstrado descontentamento com as novas medidas. Não tive oportunidade de comprovar estes números – nem faço tenções de – mas, uma coisa é certa, há exageros. Tanto do lado da Direcção, como do lado dos formandos.
As regras afixadas e que tanto descontentamento têm provocado vêm no Regulamento do Formando. Em declarações a um jornal local, a Directora terá afirmado que essas regras vêm no Contrato de Formação. Na altura em que escrevo este artigo não tenho como comprovar ou desmentir essa afirmação. Vou acreditar que é assim.
São três, as regras da discórdia:

1 [No Átrio de entrada]
Agradecemos a não permanência de formandos nesta entrada.

2 [na Portaria]
Só é permitida a entrada a formandos, formadores, funcionários ou pessoal de apoio.

3 [na Portaria]
Os formandos devem permanecer no Centro durante o período diário de formação. Quem sair, não pode reentrar.

Todas as regras estão presentes no Regulamento do Formando. Algumas encontram-se escritas de maneira diferente, mas o significado está lá.
Creio que é altura de fugir um pouco à seriedade e colocar algumas questões “pertinentes”.
Em relação à primeira regra, a permanência é permitida a formadores ou funcionários? A permanência nas outras entradas também é proibida? No caso da entrada ser considerada saída, a regra mantém-se aplicável?
Há mais. "Pessoal de apoio". O que é "pessoal de apoio"? Quando um formando se sente desmotivado e liga a alguém para vir dar apoio moral, essa pessoa pode entrar?
Por fim – e esta não é brincadeira – o que acontece aos alunos que têm aulas à tarde e venham de manhã para fazer trabalhos? Não podem sair para almoçar? Esta, eu tive o cuidado de perguntar a um dos Seguranças da Portaria e a resposta que me foi dada foi "Tecnicamente, nem devia poder entrar de manhã."
Sejamos claros, eu estou na minha última semana de aulas, não tenho mais trabalhos para entregar, mas há outros formandos que não estão na mesma situação que eu. Formandos que tendo aulas à tarde precisam de utilizar a Mediateca de manhã. Se não estão autorizados a entrar fora do seu período de aulas – e o inverso também acontece, segundo me disseram, embora tenha algumas dúvidas em relação a isso – quando é que se utiliza a Mediateca para os fins que está supostamente destinada?
Nos intervalos?
Durante as aulas?
Esta situação em particular parece um pouco irrisória. Diria até, surrealista.


"Tudo tem um fim. Só a salsicha tem dois."
- Proverbio Alemão


Como formando, situo-me uma parte nos 5%, outra nos 95%. Trata-se dum excesso de zelo que, em certos casos não é compreensível ou, pelo menos, aplicável. Invocam-se diversas razões. Problemas com álcool, por exemplo. Não vou perder tempo a explicar que o Segurança tem autoridade – SUPONHO – de impedir que o formando entre caso este esteja embriagado. Parece-me lógico que seja assim e não o que se passa. São invocadas razões de segurança. Concordo plenamente com as declarações da Directora neste sentido. Os pais ficam mais descansados sabendo que os seus filhos estão no local de formação protegidos. A minha questão é: e os pais que são formandos sentem-se confortáveis com isso? É a velha regra: por uns, pagam os outros. Habituámo-nos a ver isso, a compreender e, dentro do possível, a aceitar. Faz parte da sociedade, quer se queira, quer não.
Como cronista, e é isso que aqui importa, estou 100% de acordo. Já era tempo de alguém "pôr mão nisto", como diz o povo. Aliás, para não pensarem que estou a ser irónico, eu digo: não senhor! Ironia seria, por exemplo, propor algumas regras extra tais como:

4 - Os formandos que não saibam a matéria de trás para a frente deverão usar um chapéu em cone com a etiqueta "BURRO" e sentar-se a um canto, virados para a parede.
De certeza que há formandos que merecem e formadores que só esperam por uma autorização para o poderem fazer. E reparem, eu não me estou a esquivar a nada.

5 - Meninas de cor de rosa e meninos de azul.
Isto porquê?
Porque na eventualidade de precisarmos de fazer uma análise por infravermelhos, os homens distinguem-se das mulheres pela cor da sua indumentária.
Pronto, é mentira. A cor da indumentária não tem qualquer relevância neste caso. Além disso, a eventualidade da precisarmos fazer uma análise por infravermelhos é tão elevada quanto, passe o exagero, eu almoçar no Refeitório e dizer, alto e bom som, "Sim, senhor! Que bela comida! Hmmm... Isto hoje..."
Por tudo isto, e por outras coisas que não digo aqui, concluo: estas regras – as minhas – são estúpidas.
Num artigo anterior disse que o exemplo deve vir de cima. Outro exemplo de ironia seria dizer que a Directora dá o exemplo, almoçando no Refeitório. Revelo aqui a minha ignorância, dizendo que não sei se a Directora almoça ou não no Refeitório. Caso não almoce, não pretendo com isto obrigá-la a almoçar no Refeitório apenas para dar o exemplo. Apenas acho que não deviam ser colocadas condições tão restritivas a quem não se sente bem a almoçar no Refeitório.
Devo dizer, para que não hajam mal-entendidos, que eu não me sinto prejudicado por isso, uma vez que posso almoçar em casa. Também não é segredo nenhum que não me incluo na lista de pessoas que consideram as refeições fornecidas pela Solnave saborosas e nutritivas. Acreditar que os formandos almoçam no Refeitório porque gostam da comida e não porque não podem sair durante o período de almoço parece-me um pouco ingénuo. Mas, é a minha opinião – vale tanto quanto qualquer outra.
Mas, nem tudo é mau e há um aspecto positivo no meio disto tudo. Pelas informações que tenho recolhido, o tempo de espera no Refeitório aumentou. Por outras palavras, o serviço é ainda mais lento do que era antes. Isto é uma vantagem.
Porquê?
Porque assim o formando, ou formador, ou seja lá quem for, tem mais tempo para se aperceber do que está prestes a fazer e ir almoçar a outro lado. No caso do formando, entenda-se como “outro lado”, o bar (que por acaso fica mesmo ao lado); no caso dos formadores e outros elementos, as opções são mais amplas.
Para acabar, alguns esclarecimentos.
Não me coloco no lado da Direcção, assim como também não me coloco no lado dos formandos ou do lado do dono do Chamonix. Reconheço os argumentos das três partes, concordo com alguns, discordo doutros. Mas não vou escolher lados. Estou a menos de duas semanas de acabar o Curso e não quero – não vou – começar guerrilhas desnecessárias. O facto de demonstrar o meu descontentamento geral surge como um exercício jornalística, a expressão da minha opinião e não como um ataque pessoal a alguém em particular.
A direcção dos Centros de Emprego é um cargo político. Não me admira, por isso, que alguns possam considerar este meu artigo um protesto contra esse sistema. Não vou dizer se concordo ou não – apenas digo: gosto tanto de rosas, quanto gosto de laranjas. No meu ver, o desempenho dos cargos depende mais da capacidade da pessoa, do que da cor que defende.
Ainda é cedo para colocar rótulos, creio eu. Há que aprender com os erros.
Eu tento.

Thursday, September 08, 2005

ARTIGO DE FÉRIAS

Dois meses afastado de Tomar é muito tempo. Sim, é verdade. Embora não tenham reparado, estive dois meses fora em estágio e, agora que me preparo para regressar a terras nabantinas, é se calhar altura de voltar atrás no tempo e fazer um rescaldo do que foram esses dois meses.
Existem vários físicos que afirmam a possibilidade de viajar no tempo. O processo é demasiado longo para ser descrito em tão poucas palavras, mas está ao nível da teoria de sermos capazes de atravessar paredes Notem que isto não é a piada. Quem me contou isto foi um licenciado em Física. (Talvez estivesse a gozar com a minha cara, mas eu sempre acreditei nele mesmo naquelas alturas em que ele costumava percorrer a Rua Augusta nu a gritar "Vem aí a retoma!"
De qualquer modo, teorias à parte, o regresso ao passado de que vos falo será feito apenas a nível virtual; neste caso concreto, até ao primeiro artigo do meu agora finito "pseudo-hiato".
Nunca o referi nos artigos posteriores mas, pouco depois da publicação do primeiro "pseudo-hiato" fui transferido para outro local. Estava na Biblioteca Central e fui transferido para um Pólo.
Fazer o balanço destes dois meses de estágio caso tivesse continuado na Biblioteca onde iniciei seria fácil. A manter-se o ritmo vivido nos poucos dias que lá estive, a minha aprendizagem resumir-se-ia a novas técnicas de ioga.


"Para nós, físicos devotos, presente e futuro são apenas uma ilusão, se bem que persistente."
- Albert Einstein


Assim, a mudança de local de estágio só me trouxe vantagens. Há que dizer: gostei de lá estar. O espaço em questão, embora tenha apenas alguns meses de existência, era um que eu já frequentava como utilizador. Era, portanto, uma casa já conhecida numa zona que eu já conheço há 25 anos. Apenas como nota de referência, foi no edifício ao lado que eu dei os meus primeiros passos. É uma zona que me traz muitas memórias; uma zona que testemunhou muito do meu desenvolvimento. Mais do que isso, fiquei pertíssimo de casa. Já não tinha de acordar mais cedo para apanhar a camioneta (ou a "carreira", como dizem algumas pessoas) – podia dar-me ao luxo de sair de casa dois minutos antes da hora de entrar e chegar trinta segundos antes da hora.
Mas, a grande vantagem não era eu já conhecer o espaço em si e a zona circundante ou ser perto de casa. A grande vantagem era o movimento. Aqui havia movimento. Havia algo para fazer. E eu fiz. Dentro das minhas capacidades e dos meus conhecimentos desempenhei funções, assumi responsabilidades.
O balanço foi positivo. Digo isto após ter ido lá no dia posterior ao fim do estágio, já como utilizador, e continuar a ser tratado como elemento da casa tanto pelos utilizadores, como pelos funcionários.
A regra de que quando vendemos um carro, não podemos voltar a passear nele a não ser que o compremos de novo não se aplicou aqui. Felizmente.

PSEUDO-HIATO 10: O BILL GATES ÀS VEZES GOSTA DE MIM

Neste momento existem três computadores onde componho os meus artigos: o meu, o do meu pai e o da Biblioteca onde faço estágio. Embora já tenha reparado nisto antes, só agora é que tenho a oportunidade de o dizer: tal como digo no título, o Bill Gates às vezes gosta de mim.
O "mim" neste caso não é referente à minha pessoa, nem ao pronome. Pode parecer algo tão simples como "um corrector ortográfico actualizado", mas é muito mais que isso.
A questão residiu na minha mente durante anos. A cada texto que escrevia, lá aparecia o "mim" com o inevitável sublinhado ondulado escarlate. Era como voltar à Escola Primária e não perceber porque é que a professora colocou mal uma palavra. "Onde é que está o erro?" era minha pergunta. Os meus colegas perguntavam "Onde é que está o Osvaldo?" (Na altura ainda não existia o Wally.)
Tentei sempre contornar esta situação fazendo a única coisa que poderia fazer: IGNORAR TODAS. Só que isso não era uma solução; era, quanto muito, um adiamento, uma negação. Como se fosse um cancro, negava o erro e deixava-o alastrar até ser tarde demais.
Durante anos pensei que era uma questão pessoal. Algo entre mim e o senhor Bill Gates. Talvez não devesse ter aceite aquela versão pirata do Windows 3.11. Devo ter sido a única pessoa do mundo a ter instalado material pirateado no computador, senão no país, pelo menos no mundo.

"O carácter quer dizer a paixão de sermos nós próprios, por qualquer preço."
-- André Suares

Quando descobri que, afinal, não era o único a padecer do mesmo mal, senti um alívio imediato. Só me lembro de ter sentido algo equivalente quando soube que não iria receber nenhuma medalha do Presidente Jorge Sampaio.
Devia ter os meus 18 anos quando fui apresentado à Comunidade. Era assim que nos referíamos a maior parte das vezes; embora também fossem comuns os termos "grupo", "ajuntamento" e "pessoal". Outros, não aderente da causa, tratavam-nos por "jagunços", "maralha" ou "bando". Dor de cotovelo, se querem que vos diga. E mesmo que não queiram…
Os anos passaram e percebi que o grupo não era aquilo que dizia ser. Decidi abandoná-lo e seguir o meu próprio caminho e aqui estou.
Anos depois, fui convidado para escrever estes artigos. Talvez não haja relação entre estes dois aspectos, mas o senhor do elefante cor-de-rosa obrigou-me a escrever isto.
Continuando no tema do Bill Gates, é verdade que cometo alguns erros ortográficos – ainda não actualizei a versão pirata que tenho do Microsoft Office – mas rogo à generosidade do senhor Bill para que me ofereça uma versão nova e legalizada.
Aconselho-o, senhor Bill, a levar-me a sério. Caso contrário, posso escrever um artigo pejorativo sobre a sua pessoa.
(…)
Foi por esta altura que o efeito dos medicamentos homeopáticos chegou ao fim e eu me apercebi de que não estava a escrever nada de jeito. Tentei então recomeçar o artigo, mas era tarde demais. O meu período de utilização tinha chegado ao fim. Resta-me apenas despedir.

Monday, August 29, 2005

PSEUDO-HIATO 9: UM ARTIGO SOBRE FOGOS FLORESTAIS

“Era um prazer muito especial ver as coisas arderem, vê-las calcinar e mudar."
- Ray Bradbury


Portugal está a arder. O país atravessa uma seca extrema em 75% do território nacional e severa nos restantes 25%. O Primeiro-Ministro José Sócrates, de regresso das suas férias em terras africanas, acusou a oposição de demagogia. Chegou, pasmem-se, a usar o termo “politiquices” para categorizar as acções levadas a cabo pelos restantes partidos. Enquanto isso, o Governo mostrou-se inflexível em alterar qualquer ponto no cálculo das reformas.
Nada de novo, portanto.
Li num jornal qualquer – o “qualquer” não implica haver pouca consideração pelo periódico em questão; simplesmente não me recordo qual era – que em muitos dos terrenos ardidos em 2003 e em 2004 estão a começar a construir campos de golfe, estâncias turísticas e outros empreendimentos do género. Consta que alguns dos projectos já estavam aprovados há três e quatro anos. Só que não puderam avançar porque estavam lá umas florestas a atrapalhar.
Não posso confirmar ou desmentir isto que acabei de dizer – em Portugal é assim: reina a especulação – posso, porém, disponibilizar este meu espaço para quem quiser responder.
Fala-se muito do trabalho dos bombeiros, do sofrimento das pessoas que perderam tudo o que tinham. Não me consigo colocar na pele dessas pessoas. Pode parecer insensível dizer que não compartilho a sua dor mas, é verdade. Não compartilho. Posso sentir alguma empatia, pena, mas nada mais. Só quem perde é que sabe o valor daquilo que perdeu. Dizer que sinto algo que não sinto pode parecer bem mas, para mim, parece apenas hipocrisia.
Estou habituado a levar as coisas de ânimo leve. Faz parte da minha natureza, quando colocado numa situação adversa, explorar o lado positivo da questão. Infelizmente, aqui, não há um lado positivo. Terrenos são destruídos, espécies animais e vegetais são destruídas, a memória de gerações é consumida pelas chamas sem que nada se possa fazer.
E, no entanto, existe muito a fazer. Seja a nível de prevenção/vigília, seja a nível de sensibilização, seja a nível de mais apoio à investigação criminal, seja a nível de não aprovar construções para zonas onde existem florestas porque o mais certo é, mais tarde ou mais cedo, essas florestas devido a “causas naturais”.
Conforme vem na Legislação de Direito do Ambiente:


SECÇÃO IV
Fiscalização e contra-ordenações

ARTIGO 22.º
Contra-ordenações
1 – Constitui contra-ordenação a prática dos actos e actividades seguintes, quando interditos ou condicionados, nos termos do nº 6 do artigo 13.º ou nos termos do plano de ordenamento e respectivo regulamento previstos no artigo 14.º:
(…)
h) Colheita ou detenção de exemplares de quaisquer espécies vegetais ou animais sujeitas a medidas de protecção;


Esta alínea implica a chamada “limpeza do mato”. Soube de uma pessoa que foi multada por andar a apanhar galhos secos do chão. A Legislação proíbe quaisquer alterações a zonas protegidas, e isto inclui apanhar galhos secos do chão. É certo que os galhos acumulados depois são queimados e isso pode dar origem a incêndios mas, multar por limpar e depois afirmar que o fogo começou porque a floresta não era limpa devidamente parece-me bizarro. É quase a mesma coisa que alguém ir a uma loja de armas, comprar uma pistola e ser preso à saída da loja porque existe a possibilidade de vir a utilizar a arma para matar alguém.
Este é o meu nono artigo desde que iniciei o estágio. O número 9, para quem não sabe, representa o tema da viagem. Podemos verificar essa ocorrência em diversas obras literárias, mitologias, etc. Não quero acreditar que isto seja o fim do trajecto.

PSEUDO-HIATO 8: COM QUE ENTÃO NÃO SABEM PORQUE É QUE ESTÃO A LER ISTO?

Se é esse o caso, não se preocupem. Assim como vocês não sabem porque razão estão a ler isto, eu também não sei porque razão o escrevi. É certo que prometi no já ido segundo artigo “dar um aspecto de regularidade a isto”. Semana após semana tenho conseguido manter essa regularidade – salvo raras excepções – porém, nos últimos tempos tem-me surgido um dilema.
Por um lado, não tenho tido estímulos suficientes para escrever os meus artigos – isto porque continuo sem ter feedback e o meu estágio começa a entrar na sua fase torpe –, por outro, não tenho mais nada a dizer mas, como comecei a frase “Por um lado” tinha, obrigatoriamente, de escrever “por outro”.
É disto que falo. Piadas estúpidas. Ou estão em excesso, ou estão em falta. Não consigo acertar na dose certa.
Lembro-me como era no início. Todas as semanas havia sempre qualquer coisa para falar. Agora tenho de pensar no que hei-de escrever. Verdade seja dita, sempre que passo por uma destas fases menos boas, acabo por regressar sempre com novas ideias, sempre melhores que as anteriores. É uma espécie de metamorfose mas, não acabo vestido de borboleta.


“Nas rulotes, sacudia-se mosca e o calor com um gesto único.”
- Dina Gusmão


Contudo, detesto esperar. Detesto escrever e não ficar satisfeito com o que escrevo. É um trabalho que requer persistência e muito sangue frio. Não podemos ver as frases senão dum ponto de vista realista – não as podemos odiar, não as podemos amar. Temos de ser imparciais como um juiz. As nossas ideias são sempre boas ou sempre más, depende se somos optimistas ou pessimistas. É importante o meio termo.
Gosto de pensar que sou imparcial tanto quanto posso. Sou também receptivo a críticas e sugestões desde que devidamente fundamentadas. Comentários subjectivos, sejam positivos, sejam negativos, ajudam apenas a alimentar ou a ferir o ego, não contribuem para que haja uma melhoria significativa daquilo que é escrito.
É uma questão de reivindicação. Todos reclamam porque têm esse direito, mas ninguém sugere o que fazer para melhorar as coisas. Passa-se quase o mesmo aqui. Além de não reclamarem (se o fazem, não há registos disso), também não sugerem nada.
Ditas as coisas, às vezes pergunto se não estarei a perder tempo com isto mas, esse sentimento logo desaparece quando vos imagino de pé no Bar ou na Mediateca a ler isto e penso: “Não sou o único a perder tempo.”Ainda não sabem porque é que estão a ler isto? Talvez por não terem mais nada de interessante para fazer.

Sunday, August 28, 2005

PSEUDO-HIATO 7: MUNDO BIZARRE

Para os que estão familiarizados com a revista referida no título, desde já vos aviso que o artigo que têm em mãos não terá nada mais relacionado com o periódico citado, exceptuando a já referida referência onomástica e alguma verborreia um tanto quanto similar àquela através da qual que os redactores e cronistas da publicação tentam incutir as suas opiniões pessoais disfarçadas de análises imparciais.
Mondo bizarre = mundo bizarro. A referência serve para isto. Vivemos num mundo bizarro, digam lá o que disserem. E esta expressão inspirou-me, ou melhor, serviu-me de inspiração para falar de alguns assuntos que têm causado alguma inquietação mas que a mim têm passado completamente ao lado. No entanto, como eu gosto de estar a par daquilo que preocupa os cidadãos deste nosso Portugal, resolvi falar deles. Além disso, colocar seja o que for em itálico é de altíssimo nível e faz com que uma frase absolutamente banal se transforme em algo de génio. Reparem:

“A força devastadora das chamas não poupou tudo o que o encontrou pela frente.”
— in Correio da Manhã

As minhas sinceras desculpas ao jornalista autor desta frase por não colocar aqui o seu nome. Não o faço porque perdi o papel onde tinha isso escrito e não porque o jornalista tenha nome de aperitivo. (Talvez até tenha, mas como perdi o papel não há como saber.)

Vejam agora em itálico:

“A força devastadora das chamas não poupou tudo o que encontrou pela frente.”

A colocação da palavra “devastadora” em itálico pode ter um número infindo de significados. Depende do ponto de vista de quem lê.
Deixemos os exercícios estilísticos para outra altura em que eu não tenha nada para falar. Penso que já perceberam o que eu quis dizer.
Os assuntos de que vos vou falar hoje datam até ao período máximo de duas semanas. É triste dizê-lo, mas é verdade – a memória já não é o que era. Felizmente, ainda consigo ser auto-subsistente. Só preciso de alguém que cozinhe para mim, que me lave a roupa, que me corte as unhas dos pés, que me faça a cama, (se for uma mulher, jovem e atrante) que me dê banho e que, no fim de cada mês, me dê algum dinheirinho que a vida não está fácil.
Ordenei os assuntos por ordem de importância, utilizando para isso o método científico do “põe-ao-calhas”. Eis o que me tem inquietado:

Em Lisboa existem cerca de mil pessoas sem abrigo. Dessas mil, 197 foram integradas no espaço de dois anos e meio através do programa camarário Habitação Assistida.
A pergunta que se coloca é: integrados onde? Além disso, retirar as pessoas da rua onde viviam em comunidade em contacto com a natureza (nem por isso, mas pronto) e colocá-las em habitações de primeira categoria onde passam a viver sozinhas, tendo como única companhia a aparelhagem de luxo e a colecção de discos dos PSP, banda que no meu ver merecia mais destaque que os GNR de Rui Reininho. Oiçam algumas das suas canções como “Atira-me água com gás”, “Monte de areia na praia” para ver se tenho ou não razão.

“Mais vale prevenir que remediar! Isto também é válido para os cuidados a ter com a sua tartaruga.”
- Harmut Wilke

O espectáculo de despedida do Ballet Gulbenkian.
Tenho pena do Ballet ter acabado. Confesso que não sou grande apreciador desta modalidade desportiva, mas fico preocupado ao ver tantos artistas a ir para o desemprego. Não que eles tenham dificuldades em arranjar emprego – o problema não está tanto aí. O problema está em que eles não têm dificuldades em arranjar emprego. E geralmente é sempre como gerentes de bares ou discotecas.
Os artistas para mim são todos iguais. Depois dos “Amo-te”s de Pedro Miguel Ramos, só estou à espera do dia em que aparecerá o “Bar dos Cisnes” ou a discoteca africana “QuebraNozMoscada”.

A confiança dos consumidores desce para o nível mais baixo desde Setembro de 2003.
Quanto a isso não tenho mais nada a dizer, a não ser o seguinte: porque raio é que ninguém se preocupa com a confiança dos produtores? Serão assim tão desconfiados? Não merecerão também eles um pouco da nossa atenção?

A Física é a disciplina que menos motiva os alunos do 9º, 11º e 12º
Tive Física no 8º e no 9º por isso concordo com os resultados da sondagem. Por outro lado, segundo uma outra sondagem, o físico é o que mais motiva alunos, professores e demais membros desta nossa sociedade pouca dada a julgar as pessoas pela sua aparência.

Mas, todos estes assuntos são insignificantes (mundanos, até) quando comparados com este:

A Brigada Antiterrorista encontrou material suspeito de origem árabe numa casa nos arredores de Sintra. Encontraram também um exemplar do Mein Kampf.
Que não possam ser um pouco mais explícitos; tudo bem, eu compreendo. Podiam era prestar um pouco mais de atenção e reparar que muçulmanos e nazis não costumam andar de mãos dadas. Digo eu...
Se assim fosse, o mundo seria bem diferente, ainda mais bizarro do que já é.
Imaginem que os muçulmanos também curtiam do Hitler e que o Hitler ainda estava vivo. Imaginem-no a participar duma sessão de autógrafos na FNAC de Telavive aquando do lançamento do seu segundo livro Mein Hund heißt Tobias.
Conseguem pensar em algo mais bizarro que isto? Duvido.

Monday, August 01, 2005

PSEUDO-HIATO 6: "ESTÁ CIENTIFICAMENTE PROVADO"

Para tudo na vida existe uma razão. Newton provou-o: não há efeito sem causa. É por isso que a razão de vários comportamentos, porventura considerados ridículos (para mim são estúpidos), resume-se a um grupo e a uma máxima por eles há muito apregoada: “Está cientificamente provado”.
Confesso que, como membro desta sociedade, fico intrigado ao ver até que ponto uma pequena amostra pode influenciar de forma tão evidente todo o resto do grupo. Seremos assim tão manipuláveis, pergunto eu.
Em relação à sociedade a que digo pertencer, prefiro manter o silêncio. Não é má vontade minha, não é exclusivismo, é apenas uma precaução. Lembram-se daquele anúncio do Crédito à Habitação? Aquele do “Aqui vou ser feliz!”?
Quando vi esse anúncio achei-o estúpido. O anúncio em si não estava mal. No entanto, tinha um erro crasso. Ninguém, mas ninguém mesmo, encontra o sítio perfeito e a primeira coisa que faz é dizer a toda a gente. Perde um bocado a exclusividade, não é? Pensem em Adão e Eva. Foram expulsos do Paraíso. Alguém sabe onde é que fica? Não, porque eles não disseram a ninguém. É por isso que eu não digo a que sociedade pertenço. Dou-vos

uma pista: as camisas que nós usamos são difíceis de tirar.
Estou-me a desviar do assunto. Peço desculpa.
Todos os dias surgem notícias de avanços científicos – uns mais espectulares que outros, devo dizer – nesta ou naquela área. O lema “Está cienficamente provado” passou a fazer parte do rol de expressões de algibeira que qualquer um pode utilizar num evento social para fazer crer que sabe alguma coisa além de consultar o teletexto para ver os números sorteados no Euromilhões (mesmo não tendo jogado por achar que aquilo é tudo uma treta).
Irrita-me, portanto, não tanto a prepotência da classe científica ou a sua arrogância (afinal, eles estão a fazer o seu trabalho), mas as escolhas daqueles que decidem quais as descobertas que possuem maior relevância para o grande público. Não somos um país culto, perdoem-me por dizê-lo, quanto muito “cultozinhos”.
A chegada das revistas científicas veio aumentar esse problema. Um cientista decente que folheie a “Quo” ou a “Super Interessante”, exceptuando um artigo ou outro, deve-se sentir como um sexólogo a ler a “Maria” ou a “Ana + Atrevida”.
É tudo uma questão de marketing. Ninguém quer saber que o stress é prejudicial para a saúde. Para quê? Ninguém vai fazer nada para o combater. É como o tabaco. “Vamos fazer etiquetas com mensagens de aviso”. Resultado, teve origem o mercado das capas para maços de tabaco.
As dietas são outro exemplo. “Amanhã começo.” E no dia seguinte, “Bom, amanhã é que é.”
No meu ver, informar as pessoas sobre os malefícios do stress só traz desvantagens. Primeiro, as pessoas ficam ainda mais stressadas; e, segundo, são publicados livros do género “Como reduzir o stress”, “Combata o stress”, “Stress: o inimigo interno”
Devo dizer que, neste caso, o que eu considero ser um comportamento ridículo, não são os estudos elaborados ou os livros publicados, mas sim o acto de comprar esses livros.

Tuesday, July 26, 2005

PSEUDO-HIATO 5: PREVENÇÃO

Há cinco semanas que estou em período de estágio e isso, quer queiram quer não, dá-me o tempo e a oportunidade necessários para reflectir acerca de assuntos importantes. Aqueles de vós que costumam acompanhar estes meus devaneios pseudo-jornalísticos poderá pensar que estou a ironizar – “Deve ir falar de extintores ou gravilha.”, dirão alguns –, porém, desenganem-se. O tema, desta vez, é sério.
O Verão chegou há pouco mais de um mês e, com a chegada das chamadas “férias grandes” (mas nunca “grandes férias” ou “férias assim-assim”), não tardarão a repetir-se as tragédias que todos nós (re)conhecemos como habituais e previsíveis em certas alturas do ano. Falo, é claro, dos acidentes na estrada.
Neste artigo pretendo e, se tudo correr de feição, vou falar de prevenção (não apenas rodoviária) mas, antes disso, gostaria de partilhar convosco uma descoberta que fiz.
Segundo as estatísticas, Portugal é dos países europeus com mais mortos nas estradas. Há quem diga que o excesso de velocidade e o alcoolismo são os principais responsáveis pelos acidentes de viação em Portugal mas, não obstante a sua influência, penso que não são estes os grandes culpados.
Vou-vos confessar algo. Eu não sou condutor, não tenho carta de condução (convém dizer isto, ainda que possa parecer redundante, uma vez que há quem tenha carta de condução e não saiba conduzir, assim como há quem saiba conduzir e não tenha carta de condução), mas até eu sou capaz de reparar que é difícil conduzir com relativa segurança quando as estradas estão cheias de cadáveres.
E o que é que o Governo e as entidades ditas responsáveis fazem em relação a isto? A resposta é: nada.
Eu sei que existem campanhas de prevenção. O problema é que essas campanhas são planeadas com base no número de vítimas mortais; por outras palavras, são feitas em função dos mortos. Talvez seja ignorância da minha parte (talvez não); a verdade é que esta perspectiva de acção confunde-me. Expliquem-me o seguinte: quando fazemos algo em função de alguém não é com o objectivo de ajudar esse alguém? Sempre acreditei que sim. Portanto, se o objectivo é ajudar os vivos, porque razão é que planeiam as coisas em função dos mortos?
Talvez seja por isso que a coisa não pega.

“Uma criança precisa de um pai e de uma mãe e não de dois pais e de duas mães.”
- D. José Saraiva Martins



A prevenção é uma tarefa delicada. No fundo é como contar uma piada – se não for feito com o timing certo, não resulta.
Imaginem a seguinte situação:
Um polícia de trânsito manda parar um condutor embriagado. O polícia pede ao condutor para fazer o teste do balão. O aparelho regista uma taxa de alcoolémia muito elevada mas, apesar disso, o polícia deixa o condutor seguir viagem sem lhe aplicar qualquer sanção.
Meia hora depois, o polícia apercebe-se dos valores registados no aparelho e vai em perseguição do condutor. Quando finalmente o encontra diz:
“Ó amigo, olhe que você tem 3% de álcool no sangue.”
“Ora bolas! Então e só agora é que me avisa?”
“Só agora é que me lembrei. Vá lá que ainda foi a tempo...”
Acredito que está, ou melhor, estaria ao alcance de todos nós prevenir, para depois não remediar. Conjugo o verbo na forma condicional porque esta é, literalmente, uma condição não concretizável. Infelizmente, a verdade (ainda) é esta: nós não prevenimos, mas também não remediamos: nós deixamos andar. Será que este padrão de passividade comportamental irá algum dia (nem que seja mesmo apenas um só dia) mudar?
Além dos condutores, julgo que a prevenção também deveria fazer parte do planeamento familiar dos casais portugueses ainda em idade de procriar. Não me refiro aqui a questões de natalidade ou estabilidade financeira – embora sejam também importantes – mas a algo um pouco mais complexo.
Para vos explicar bem o que estou a falar, gostaria de partilhar convosco uma ideia – ideia essa que, provavelmente, já passou pela cabeça de alguns de vós. Como seria Portugal hoje se há sessenta e tal anos dois determinados casais tivessem optado por ir ver um filme do Manoel de Oliveira ao invés de cederem perante a tentação e darem largas à sua devassidão carnal?
Não sei como seria, mas decerto que Portugal estaria melhor se os pais do Alberto João Jardim e os pais do Avelino Ferreira Torres tivessem visto o “Aniki Bóbó” do princípio ao fim. Na pior das hipóteses teriam tomado umas cápsulas de cianeto e eu não estaria a escrever estas alarvidades agora. Assim como vocês não as estariam a ler.
É tudo uma questão de prevenção.